O Clone (Texto Filosófico)

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O Clone (Texto Filosófico)

Mensagem por Ignatiy em Qui 29 Dez 2016, 20:27

“[...] o que você faz é algo que todo o universo está fazendo no lugar que você chama de ‘aqui e agora’. Você é reflexo do universo inteiro, da mesma forma que uma onda é causada por todo o oceano.” Alan Watts, no vídeo The Real You , tradução livre. Favor, assistir. Acho interessante ver que uma percepção que demorei tanto pra desenvolver se encontra tão disseminada, em particular, na filosofia oriental, desde muitos séculos – o difícil é interpretá-la. Fico feliz que eu tenha bolado essa metáfora que agora apresentarei: essa filosofia é importante pra mim.

Que tal isso: imagine que, agora mesmo, você é duplicado. Em um cenário mais adequado, imagine que isso ocorreu de tal sorte que você não sabe quem é clone e quem é o original – se não conseguir, imagine que você é o clone. De qualquer forma, não restam dúvidas: ele é você, e você é ele. Você compreende isso, sua empatia não lhe permite negar que seus sentimentos são compartilhados. A angústia que você sente diante de tão inexplicável episódio, ele também sente; o assombro, a inquietação. Sua mente tenta entender o impacto de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Seus olhares se penetram mutuamente, suas mãos se entrelaçam – é como um reflexo de vida própria.

Certamente, é estranho estar separado de si mesmo por um novo corpo.  Sua troca de olhares parece uma tentativa involuntária de se reconectar – como pode que você não tenha acesso ao que ele vê e sente, se ele é você? Ainda sim, você compreende que o que quer que fizesse a ele, estaria fazendo a si mesmo. Sendo assim, eu não posso deixar de insinuar que, de tal sorte, todos os seres humanos são clones seus, desfigurados, é claro, mas que, em essência, somos a mesma unidade; apenas não somos capazes de ver, sentir e saber o que os outros sentem e saber. Uso essas características me lembrando de uma passagem que gosto bastante do Guia dos Mochileiros das Galáxias, que cito abaixo.

O que eu quero argumentar é: não faz mínimo sentido agradecer por ser quem você é; é presunçoso, inclusive. Afinal, o que faz com que você tenha nascido você, e não tenha nascido o infeliz maltrapilho que dia e noite sente fome? Será que faz sentido pensar em uma consciência prévia ao nosso nascer (alma, talvez), que apenas foi colocada em um corpo (por Deus, por Karma, quem sabe)? Particularmente, acho que Deus não seria tão inoportuno assim, afinal, vemos tantos ricos repugnantes, por que ele faria esse tipo de seleção? Particularmente, gosto do pensamento imanente, e não me acostumo a pensar que o que nos define como ser venha antes da nossa própria existência – quero dizer, que o que faz você ser você e não outro alguém não deve ser algo cabalmente coisa de outro universo.

Vocês sabem do que eu estou falando, vocês conhecem os filmes do tipo Se eu fosse você. Será que o que diferencia você e outro alguém não sejam apenas coisas desse mundo? Eu provoco argumentando que se você fosse outro alguém desde bem cedo, na verdade, você (quem quer que habite seu corpo) e esse outro alguém seriam exatamente iguais ao que seriam caso a “troca” nunca tivesse ocorrido. Afinal, como ver, sentir e conhecer tudo o que o outro conhece e não ser ele? Eu prefiro acreditar que exista uma única essência, como uma única alma – apesar de não acreditar ser bem isso -, e que ela habita todos os corpos, como se fossemos todos clones. Apenas nos separamos pelos lugares que chamamos “aqui e agora”. Sendo mais imanente ainda, eu acredito que somos puros átomos, e que nossa essência é mesmo o cosmos, ou propriamente, o universo. Seja lá como for, acho que tantos problemas seriam evitados se parássemos pra pensar mais sobre isso, se tentássemos nos colocar no lugar do outro...

”Anexo”:
Sim, isso implicaria que eu sou você, e vice versa. Talvez, que sejamos tudo no universo, porque o somos.

Citação do Guia, de forma aproximada: Você não pode saber o que eu sei, nem ver o que eu vejo, porque você vê o que você vê e sabe o que você sabe. O que eu vejo e sei não podem substituir o que você vê e sabe, porque são coisas diferentes. Tampouco podem substituir o que você vê e sabe, porque isso seria substituir você.

”A lenda de Aang?”:
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Re: O Clone (Texto Filosófico)

Mensagem por Thear em Seg 02 Jan 2017, 05:27

Ok, fiquei na duvida sobre o que exatamente você esta querendo dizer. A ideia que esta defendendo é que a unica coisa que nos faz diferentes uns dos outros é o fato de que temos diferentes experiencias? Mas esta considerando apenas a experiencia do momento, e não o passado?

Não tenho certeza se entendi tua ideia, mas vou tentar elaborar o que penso do caso de "Se Eu Fosse Você" ou filmes do tipo. Tu me diz como esses pensamentos se relacionam com teu tópico.

Esses filmes pressupões a existência de algum tipo de alma ou similar, como uma personalidade permanentemente atrelada a ela (apesar de que não imutável). Uma versão do mundo real desse filme envolveria trocar completamente o cérebro de uma pessoa pela outra, para garantir a transferência completa de personalidade, e nos dias, semanas e meses que se seguem (se a troca não for revertida), ambas as pessoas trocadas mudarão gradualmente sua personalidade, ideias e opiniões para se adequar melhor à nova perspectiva na qual foram inseridos. Mas não acho que um jamais se tornaria completamente o outro, visto que cada um ainda lembraria suas experiencias passadas no corpo anterior. E mesmo se tais memórias fossem apagadas na troca, as próprias diferenças no cérebro ainda fariam algum efeito. 
Claro, pode ser que o filme não troque o cérebro das pessoas, apenas altere-os para que um passe a ter as memórias do outro, e não as próprias, assim quase se tornando o outro. Nesse caso o cérebro não influenciaria mais, mas ambos os participantes desse experimento sádico ainda mudariam suas personalidades conforme se adequam às memórias antigas e o novo corpo, sem falar do próprio trauma de trocar em si.


Estou fazendo algum sentido aqui?

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Re: O Clone (Texto Filosófico)

Mensagem por Ignatiy em Qui 05 Jan 2017, 14:08

Não, não, não é por aí que eu tento argumentar. Basicamente estou propondo uma consequência quase metafísica pra algo profundamente imanente - a inexistência de uma alma particular. Nesse caso proponho que o filme Se eu fosse você, que trabalha com "troca de almas", não teriam premissa nenhuma. Digo, para exemplificar, que se você tivesse um clone, realizar tal experimento com ele não resultaria em nada, já que suas almas são iguais. É claro que se for um clone que vive uma outra realidade e se, como no filme, suas experiências fossem junto com sua "alma", haveria diferença, e por isso eu propus um experimento realizado bem cedo, pouco depois do nascer.

Mas isso não é o cerne da questão, novamente, porque meu problema com a ideia de alma é essencialmente a proposta de que existe algo à priori que diferencie a mim e a você. Algo além dos átomos que compõem o meu e seu corpo. A proposta imanente é justamente que somos como um agrupamento de personagens feitos a partir da mesma massa de modelar, e que, portanto, a nossa essência é exatamente a mesma. Não havendo nada além do corpo (do molde) para diferenciar a mim e você, somos justamente como clones - em termos de essência. O que achas dessa ideia?
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Re: O Clone (Texto Filosófico)

Mensagem por Thear em Qui 05 Jan 2017, 23:12

Não tenho problemas com ela. "We are made of starstuff". 

Isso trás uma ideia interessante. Imagine como seria olhar de longe para a humanidade como um todo, sendo você um alienígena de qualquer tipo. Seriamos aos seus olhos muito parecidos entre nós, certo? Tal como macacos de mesma espécie são parecidos entre si para olhos não habituados, ou mesmo como membros de outras etnias parecem "todos iguais" aos olhos de alguém que pouco convive com pessoas de tais origens (a história do "japonês é tudo igual" por exemplo). 
Mas claro, se você, o alienígena, olhar mais de perto e nos observar por um tempo, vai notar logo as diferenças em nossas aparências e logo terá facilidade em nos diferenciar uns dos outros. Vai nos ver como cada um dos indivíduos que compõe a espécie humana, em vez de nos ver genericamente como "humanos". 
Mas talvez então você, nosso observador extraterrestre, decida olhar mais perto ainda e prestar atenção em nossos aspectos sociais e psicológicos. E logo repare em inúmeros padrões em nosso comportamento, o tipo que psicólogos, sociólogos e antropólogos tanto trabalham para estudar. Vamos começar a ser muito parecidos novamente.
Em seguida você, o pesquisador interestelar, decide passar longos períodos de tempo vivendo em meio a um grupo de humanos, e talvez depois troque pra outro grupo, ou passe um extenso período com apenas um de nós. Você vai ver as nuances que diferenciam cada individuo dos demais, em termos de personalidade e características mentais no geral. Olhando tão perto assim por tempo suficiente, logo entenderia que cada um de nós é realmente bastante único, mesmo em meio a tantos padrões. 
Mas você, o intelectual das estrelas, quer ir ainda mais longe, e olhar mais de perto, e decide nos analisar a nível molecular... atômico, ate sub-atômico. E logo as diferenças vão embora novamente, mesmo analisando os aspectos mais raros de cada individuo nosso, como DNA e a mente. São todos compostos dos mesmos materiais. O átomo de hidrogênio compondo uma molécula de uma célula de uma pessoa é (praticamente )idêntico a outro átomo de hidrogênio que existe em outra pessoa do outro lado do planeta, totalmente não relacionado. 

E provavelmente da pra adicionar mais alguns níveis no começo e no final desse exercício. É interessante, mas é claro que ele envolve forçar a barra em alguns pontos. No fim, eu acho que o penúltimo nível analisado pelo pesquisador alienígena (as nuances individuais, "imagine other complexly") é o mais importante, apesar de que ainda dou bastante valor ao anterior também (os padrões das nossas sociedades e civilizações). 

O nível do ultimo paragrafo (átomos e menor), é interessante e util para nos dar perspectiva de nossa parte no universo, e como somos apenas um pedaço de tudo, mas não da pra desconsiderar que os dois níveis anteriores são essenciais para definir tudo o que valorizamos e permitir que valorizemos a própria vida (nem que seja simplesmente porque queremos valoriza-la e queremos ter uma desculpa filosófica qualquer à disposição). E claro, o valor que a humanidade da à vida é importante para aqueles que valorizam a vida (nós mesmos), simplesmente porque, ate onde temos conhecimento, nada alem da humanidade seria capaz de preservar a vida no universo. Talvez o universo esteja cheio de vida (muito, muito provavel alias), mas se não estiver, e a humanidade por acaso desaparecer antes de poder se espalhar pelas estrelas, a vida no universo estará condenada a morrer com a Terra.

Ok, saí bastante do assunto, mas faz parte de conversas assim.

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