Caixa de brinquedos

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Caixa de brinquedos

Mensagem por Tarin em Qua 23 Mar 2016, 00:32

Olá, povo!

Inspirado pelo tópico do Zé, resolvi fazer minha própria caixinha, e colocar uns textos de autoria minha pra dividir com vocês e trocar ideias, críticas, opiniões. Vai como prática e como incentivo pra eu escrever, e aprender cada vez mais. Smile  

Os textos não vão ter nenhum formato ou estrutura fixa, mas quem sabe alguns personagens apareçam em mais de um.

Vamos ver o que tem dentro dessa caixa, então!

Um encontro entre amigos - Parte 1
Arte, etc,
Um encontro entre amigos - Parte 2
Beco, Av.93


Última edição por Levi Gomes em Sex 10 Jun 2016, 17:35, editado 2 vez(es) (Razão : Novo texto)

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Re: Caixa de brinquedos

Mensagem por Tarin em Qua 23 Mar 2016, 00:37

Um encontro entre amigos - Parte 1


"Kanai, vai lá no quiosque pegar uma cerveja pra mim, ok?"
Aquela voz ríspida era como um isqueiro acendendo algo no interior do seu corpo. Não era uma sensação boa, ruim, que se descreva de maneira tão básica. Era uma força que ligava os extremos do cérebro como uma onda magnética, transformando aos poucos as coisas que tinham dentro. Antes de ter tempo de pensar, já sabia que iria concordar em fazer qualquer coisa por ela, uma sensação como uma serpente se enroscando no seu pescoço.
"Um brinde pelos nossos bons tempos, heehee."
Se levantou e traçou um caminho pelo aglomerado de pessoas no pátio até o quiosque. Sua percepção estava vaga, esbarrando nas pessoas conforme andava. Olhava pra elas e via símbolos inexpressivos. As imagens em sua cabeça lentamente começaram a se dissipar até virar ideias.

O quiosque era um barzinho simples que ficava na praça da frente da faculdade, mas em algumas noites de sexta-feira, algum sentimento inexplicável tomava conta do ar e tornava o lugar como um farol, atraindo todos os personagens da juventude local para passar tempo na praça, beber, conversar, viver... A primeira vez que Kanai viu isso acontecer, teve certeza de que estava experimentando algo de alguma forma sagrado. Não como uma força externa, mas um ritual que acontecia no seu interior e ao mesmo tempo em todo o universo. Aquela sensação era tão forte, que o amedrontava completamente a ideia de se entregar para ela. Se a imensidão que ele sentia dentro de si fosse uma ilusão, não conseguiria continuar vivendo com a mediocridade da vida cotidiana de medidas incertas. Era uma fome despertada pelas experiências novas daquele parque da vida adulta, tingindo algo no seu interior com uma nova cor e textura. Aquilo que conhecia como si mesmo se uniu com a massa do mundo novo, moldando sua forma e deixando algo muito valioso ser exposto ao exterior.

Quando começou na faculdade, Kanai se sentia isolado e alienado na atmosfera nova, onde tudo parecia um pouco mais ameaçador, um pouco mais inalcançãvel. O próprio prédio era imponente, parecendo um templo grego antigo, um artefato de uma época totalmente incompatível com a atual. Colunas brancas suportando a estrutura, uma imensa escadaria cheia de estudantes em grupos sentados nos degraus. O contraste da regalidade do lugar com a energia, a individualidade contemporânea das pessoas que o habitavam era como uma lembrança de um sonho que tinha tido muito tempo atrás, quando tinha dez anos. As forças opostas puxando pra cada lado, ele no centro. Era algo familiar, mas tambem sinistro. Uma face negra que aparecia nas lembranças de inocência e pureza, uma mácula que transformava o que ele até então tomava como garantido. Mas ele não sentia medo, pois aquela situação não era um beco sem saída, mas sim uma oportunidade. A excitação oscilante e incandescente ardia no seu interior junto com todas as outras sensações, resultando em algo que era maior do que a soma de suas partes.

Mas logo percebeu que aquilo era algo que acontecia apenas no meio da madrugada, quando estava sozinho em sua cama, olhando para a imensidão branca e criando as histórias que queria na sua cabeça. Era uma miragem, uma fumaça tênue que desaparecia em contato com a massa da realidade. Passou a ter outros sonhos; As crianças brincavam nos parques e olhavam para ele com expressões indecifráveis, com olhos negros como carvão. Era noite, e muitos prédios altos rodeavam a rua da sua casa de infância. Nenhuma janela estava iluminada, exceto no prédio da esquerda, onde janelas roxas cobriam um dos andares do topo. Sentia um temor intenso a cobrir seu corpo, tomava consciência de sua respiração e sua mente despertava, deixando-o lúcido de que aquilo era um sonho, mas ainda incapaz de acordar. Naqueles momentos, ele enxergava algo dentro de si que ele nunca tinha conseguido encarar antes; o que escondiam os pequenos reflexos de escuridão que tentava não ver na vida diária. Naquele dia, conheceu a morte. Acendeu a luz do quarto e abriu a janela, o céu noturno era como um mapa da sua essência. Tentou lembrar do seu lugar seguro, a primeira tentativa que tinha feito de construir um futuro imaginário pra si mesmo. Estantes de livros nas paredes da sala do lado de uma poltrona antiga, requintada com padrões ocultos, pentagramas. Era madrugada e estava sozinho no apartamento escuro, mas não sentia medo. Era o seu espaço, e aquela ideia era mais valiosa do que tudo.

Quando era criança, Kanai sempre queria crescer logo, se sentir poderoso, com agência. As coisas brilhavam de um jeito mais simples e destacado naquela época. Costumava brincar com uma amiga na infância, filha de um amigo do seu pai. Seu nome era Clara e era dois anos mais velha que ele, Tinha longos cabelos castanhos, olhos verdes e um jeito descompromissado que contagiava, o fazendo sentir mais vivo e confiante quando ela estava com ele. Costumavam se encontrar no escritório onde seus pais trabalhavam. Ficava num prédio antigo, com paredes amareladas com tinta descascada, chão de madeira velha que rangia com os passos e teias de aranha esgueirando pelos buracos do forro do teto. O escritório em si era composto por uma sala de entrada com uma mesa grande no centro, duas salas pequenas com armários de arquivos e escrivaninhas e, um banheiro tambem pequeno. O prédio tinha só mais dois apartamentos que estavam sendo utilizados, e os corredores tinham várias salas abertas utilizadas para limpeza ou manutenção, o que deixava-o com vários espaços interessantes pra explorar. De vez em quando, Kanai ia com seu pai ao escritório, nos dias em que ele sabia que Clara tambem iria. Conversavam sobre a escola, as coisas que viam no dia-a-dia e os livros que estavam lendo. Quando estava com ela, aquele prédio se tornava um templo secreto cheio de segredos. As melhores lembranças que Kanai tinha de sua infância eram percorrendo aquele prédio velho e sujo com Clara, o mais próximo que sentiu de liberdade em sua vida.

Kanai e Clara se conheceram quando os pais de Kanai convidaram a família de Clara pra ir num jantar em sua casa. Kanai não era um menino sociável como os outros da vizinhança, preferia ficar em casa lendo livros e revistas do que brincar na rua. Quando ficou sabendo que uma menina da sua idade estava indo pra sua casa, ficou irritado. Não gostava que seus pais o forçassem a interagir com outras crianças, aquilo o fazia sentir como um bonequinho idiota, que iria obviamente se dar bem com outros, pois eram todos crianças, de mentes simples e interesses bobos. Por isso, quis manter seu orgulho e não foi cumprimentar quando os visitantes chegaram. Ficou no sofá de seu quarto lendo revistas em quadrinhos, ouvindo de relance os sons das pessoas conversando animadas pela casa. Tentava concentrar seu cérebro nos balões de fala das páginas, mas não conseguia deixar de prestar atenção nas vozes que vinham de fora. Ouviu uma voz masculina dizendo que estava feliz de visitar e que achava que Clara ia se dar bem com Kanai. Ótimo, adultos chatos, pensou. Só tentam encaixar os filhos nesses papéis genéricos, como se fossemos uma receita de bolo onde é só jogar os ingredientes e sempre vai sair o mesmo resultado. As vozes chegavam cada vez mais perto, até que a porta do seu quarto se abriu. Sua mãe estava com Clara, uma menina envergonhada com as mãos atrás das costas que olhava para o seu quarto com curiosidade. Murmurou um oi sem se levantar de seu sofá, atordoado com a entrada de uma estranha em seu quarto. Sua mãe foi embora e Clara olhou pra ele com um olhar amedrontado. Nos segundos que ficaram olhando um para o outro, Kanai sentia como se algo estivesse expandindo rapidamente dentro de si, retirando o espaço pros pulmões se encherem. O contraste da luz e das sombras do quarto se fazia cada vez mais presente. Clara desviou o olhar, andou até a frente da sua estante e ficou alguns minutos olhando pros livros sem fazer nenhum ruído. Kanai tentava formar algum pensamento, mas era impedido pelo barulho ensurdecedor do relógio da sala.

Parte 2

Comentários:
Os nomes que eu escolhi não tem significado nenhum, foram só a primeira coisa que me veio na cabeça.


Última edição por Levi Gomes em Qua 04 Maio 2016, 13:16, editado 4 vez(es) (Razão : Adicionar link da parte 2)

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Re: Caixa de brinquedos

Mensagem por Thear em Qua 23 Mar 2016, 13:36

Eu gosto da escrita, é clara e fácil de seguir quando algo focado na mente de alguém frequentemente não seria.
E eu gosto de como a mente do personagem volta ao passado em vários passos, indo cada vez mais para trás. No geral, todo o fluxo de pensamentos (Não pensamentos... causa e efeito no desenvolvimento psicologico?) fazem Kanai parecer real, sim. 
Acho que o final foi um tanto abrupto demais, só. Um texto desse estilo pode terminar abruptamente, claro, mas acho que foi um pouco demais. Se pretende continuar, talvez seja bom deixar claro, fora do texto, que isso é um pedaço de um todo. Assim o leitor já fica com alguma prontidão para um final assim ou pode imediatamente compreender como terminou (um ou outro, dependendo se tu por o aviso antes ou depois do texto).

Anyway, eu gostei. E espero poder ler mais dessa caixa no futuro.

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Re: Caixa de brinquedos

Mensagem por Tarin em Sex 22 Abr 2016, 04:00

Arte, etc,

Arte. Ainda lembro do dia em que quis "distanciar-me dos meus eternos problemas internos, e escrever arte". Na minha cabeça, arte era toda essa metáfora pré-cozida, embalada em um fino véu de ironia e eufemismo. Mas eu nunca fui muito bom em produzir esse tipo de arte. Nunca fui muito eficiente, quero dizer, pois tenho a tendência de adiar meus projetos constantemente,

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Re: Caixa de brinquedos

Mensagem por Tarin em Qua 04 Maio 2016, 13:11

Um encontro entre amigos - Parte 2


"Eu terminei de ler aquele livro, Um girassol na janela."
"Ah... É mesmo? O que você achou?"
"Eu gostei, é um livro bem cheio de emoção. Tem várias partes tristes, mas a Vivinha sempre mantinha esperança de que as coisas iam dar certo."
"É, verdade. Mas eu achei a história meio exagerada, principalmente a revelação do último capítulo, que foi... conveniente demais!"
"Hahaha, eu achei que ficou legal, como se tivesse sido a magia da Santarena e do Helianto. De que livros você gosta, então?"
"Eu gosto de livros de mistério. Quando tem um assassinato e todos suspeitam do cara malvado, mas que no final, era o amigo do herói o culpado! Essas histórias que são as minhas preferidas, as mais inesperadas!"
O entusiasmo de Kanai se tornava visível conforme falava. Clara abriu um grande sorriso.
"Parece divertido. Tem algum livro desses que você pode me emprestar?"
As lembranças eram como fragmentos vistos de longe num universo vasto. Um conforto que se perdeu nos caminhos do tempo, só restando algo frágil, inexpressivo. Por que algo tão precioso tinha se tornado uma sombra pegajosa que rastejava por sua mente, como um mau agouro de tempos que já foram e outros que ainda estão por vir?

Tentava lembrar. Quando se sentia no ponto mais baixo, incapaz de lidar com o que lhe era atribuído pelo mundo, fechava todas as entradas da sua mente e buscava nas suas lembranças um momento de poder. Era uma sensação menor do que um grão de areia, mas que tomava seu corpo de maneira intensa e completa. Abandonava sua consciência e se tornava uma existência fraca, uma palavra críptica contada por um velho no meio da estrada de Janeiro. Sons, imagens e cheiros percorriam distantes e trêmulos, como luzes distantes da cidade. Alguns deles chegavam mais perto, e traziam uma sensação particular que carregavam, numa mistura de afeto e perda que o fazia sentir  inteiro por um único momento. Esse ritual o moldava por dentro como uma obra-prima em construção, um objeto disforme que aos poucos se solidificava. Mas as vezes, as lembranças se tornavam muito abundantes e incontroláveis, trazendo experiências que preferia manter dormentes.
 
Uma foto antiga, estava numa excursão no campo, nos arredores da cidade. Uma instabilidade tomava conta do seu corpo conforme se aproximava do rio, o cheiro de um perfume doce e nauseante pairava no ar. Olhava nas águas e via um reflexo vago, disforme. Quantas vezes já tinha visto aquela imagem? Uma engrenagem barulhenta estava em movimento. Tic. Tac. Enxergava algo na sua frente. Clara estava sentada numa elevação distante à beira do rio, olhando para alguma coisa no céu. Começava a correr. Calor se espalhava por seu corpo, tentava correr mais rápido, mais rápido! Mas conforme se aproximava, sua visão ficava enevoada e as coisas começavam a perder a forma. O mundo se tornava vermelho e um medo intenso tomava conta de sua mente. Sentia cortes violentos em seu corpo, sangue negro jorrando em jatos, regando campos vivos e verdejantes com veneno. Queria se entregar ao pior pensamento, aceitar as palavras finais de uma figura obscura e disforme que caminhava em sua direção.  

"Acho melhor pararmos de nos encontrar." Os sons do mar manipulavam um espaço vazio dentro de si. Uma onda se dirigia à costa, em breve a inundaria com uma lama incolor e densa. O tempo passava como uma brisa morna batendo em seu rosto, uma tarde quente de verão em que olhava para o horizonte como se tivessem montanhas lá na distância. Ainda sentiria aquela dor como se tivesse sido ontem, se ousasse buscá-la dentro de suas memórias. Carregava todos esses pedaços disformes de emoção dentro de si e chamava-os de sua história. Depois de um tempo, o peso de carregá-las se tornou excessivo, uma bagagem extra que não lhe seria útil na viagem tortuosa que seguiria em frente. Mas nunca as abandonou completamente. Sabia que perderia algo mais fundamental que tudo, se fizesse isso. "Algumas dores são mais importantes do que a sensação de não senti-las." Quem tinha lhe dito isso? Não quis saber.  
     
Kanai voltava do quiosque para o banco onde os seus amigos estavam. As vozes altas, risonhas, rudes, atraentes que ouvia enquanto passava pelo meio do aglomerado de pessoas na praça ecoavam na sua cabeça em uma cacofonia insuportável. Os pensamentos tinham se interrompido, como se um fluxo de energia tivesse sido barrado. O calor intenso que sentia mais cedo já tinha se tornado uma carga pesada no seu corpo, estéril, inviável. Por que tinha lembrado daquilo naquele dia? Era como se algo lhe dissesse pra olhar pra trás e procurar alguma pista que tinha passado despercebido, porque ela vai ser muito importante no futuro. Segredos e mistérios... Apenas farsas de uma mente que procura desesperadamente por significado onde não há nenhum. Era um pensamento nauseante, mas necessário como base firme para evitar que caísse na infinidade de dúvidas abissais. "E se tivesse sido diferente?". Palavras inúteis, nojentas.

Quando chegou no grupo, ela o cumprimentou de longe com um olhar cerrado e cheio de significados. Mais cedo, aquilo criaria uma fonte de energia imediata entre seus corpos, o prelúdio de uma conexão ensaiada faz tempos, mas nunca concretizada. Agora, porem, algo tinha mudado.
"E aí, trouxe a cerveja?"
"Sim, tá aqui." O tom ríspido de suas palavras o surpreendeu de leve.
"Tudo bem com você? Aconteceu alguma coisa?"
"Hmm? Não é nada, só estou cansado."
O rosto dela se contraiu em uma careta, mas logo depois deu um sorriso opaco.
"Tudo bem. Mas vamos conversar mais um pouquinho, é cedo ainda."
Falava como se algo não estivesse irremediavelmente rompido, palavras sonoras que doíam. Ela aproximou seu rosto dele, e tentou enxergar algo em seus olhos, como se procurasse algo que dissesse "Não". Kanai fechou os olhos. A boca dela tinha um gosto amargo, de cigarros e cerveja. Por alguma razão, ouviu o barulho de águas fundas fluindo em passagens subterrâneas. Lá nadava uma moça de expressão solene, escondendo uma profundidade vulcânica que ameaçava romper sua prisão e transformar o mundo inteiro em massa disforme, branca e única.

...


Anoiteceu na cidade. Alguns correm pra suas casas, outros saem pra bares, se divertem com amigos. Antigamente, eu temia as noites, atemorizada pelas sombras e a escuridão. Mas isso foi numa outra vida, outra primavera, como alguém um dia tinha me dito. Aqui na cidade, eu descobri uma nova noite, cheia de segredos e de oportunidades. Um lar de sorrisos incertos, intenções dúbias, gestos vagos, todos claros como cristal diante de meus olhos. Sempre me disseram que eu sou mais esperta do que deixo parecer. Uma afirmação risível. Acham que me descobriram, que esse é o meu grande segredo.  Nada é melhor do que o olhar de espanto, medo e desgosto profundo quando descobrem que na verdade, eu sou muito mais esperta do que eles mesmo pensavam. Mas aí já é tarde demais.

Fogos de artifício tingiam o céu noturno. Uma música distante podia ser ouvida. A rua estava enfeitada com faixas e adornos coloridos; pretos, brancos e verdes. Os estabelecimentos estavam fechando, os funcionários recolhiam luminárias e decorativos para dentro das lojas e varriam papeis brilhantes e lantejoulas da calçada.
"Como as comemorações daqui são exageradas. As pessoas da cidade adoram seus feriados."
"Heh. É uma distração das suas vidas monótonas e atarefadas, suponho. Vocês não tinham grandes comemorações lá de onde você veio?"
"Nada assim. Eram dias em que se faltava na aula e pronto. Não tinha esse circo todo que fazem aqui."
"É uma tradição fazer grandes festas e eventos em datas determinadas. Ajuda a esquecer dos problemas, e dá uma perspectiva diferente pras coisas. É algo incentivado fortemente por certos grupos, como você pode imaginar."
"Aqueles malditos. O povo cai nas histórias deles como um bando de idiotas."
"As pessoas querem ter algo no que acreditar. É difícil encontrar algo assim num mundo decadente como esse... Eu consigo entender o sentimento."
"Pff. Vai me dizer que você é religioso, por acaso?"
"Ahaha. Não, sou inocente demais pra isso. Eu acredito em coisas ainda mais absurdas, como num mundo melhor."
"Que romântico. Eu poderia até vomitar."
Tsk, aquele idiota. Adora se fazer de dramático pra causar uma impressão. O que mais me dá raiva, porem, é que eu concordo com ele.

Amanhã é o dia dos mortos. Um dia que traz emoções contraditórias. Eu já morri algumas vezes, desde que me conheço como gente. Mas não lamento mais nenhuma das minhas vidas passadas. Pensar em como remediar situações irremediáveis é fútil e destrutivo. Ainda assim, nesse dia, eu penso no que deixei pra trás. Já derramei todas as lágrimas que tive, então não choro. Coloco os sentimentos emoldurados numa parede branca, desnudos como que para serem julgados brutalmente. Não os ridicularizo nem os enalteço, apenas observo com olhar perfurante e analítico esperando o dia no qual eu encontre algum sentido, alguma razão mo meio desse caos. Até esse dia chegar, eu luto. Por uma vingança que não me traz nenhum prazer, exceto a realização de que ninguém passará pelo o que passei, nem perderá o que perdi. Um grito abafado por tanto tempo que finalmente explodirá em fogo e escombros, energia pura, livre e mortal.

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Re: Caixa de brinquedos

Mensagem por Tarin em Sex 10 Jun 2016, 17:33

Beco, Av.93


"Aviso especial! Acabamos de receber informações de que houve um atentado terrorista no banco GMK em Klome! Se você está nos arredores da localização, busque abrigo imediatamente, e-"

- Mais um dia, mais um atentado... Eu não me sinto mais segura nessa cidade, viu? - Marta falou após desligar a TV.

Cereza deu um sorriso complacente. Reclamar era fácil pra uma mulher com poder e influência na esfera política da cidade, parecia. Já estava irritada com aquela mulher, e decidiu terminar logo a entrevista.
- Senhora Marta, muito obrigado pelas informações que me deu, serão muito úteis para o meu trabalho.
- Oh, já vai, querida? Eu ainda tenho mais coisas pra dizer sobre o tratamento que me deram na empresa, o jeito que o Jakol me tratava, e até tinha um rumor ESCANDALOSO de que a Laura e o Tom estavam no banheiro num dia-
- Estou com pressa, preciso voltar a tempo de um compromisso hoje a noite. Agradeço muito pelas informações que você me deu.
- Oh-ho-ho, tudo bem, então. Boa sorte na sua pesquisa, do que é que era mesmo? Ahaha, já me esqueci.
- Uma investigação pessoal. Adeus, senhora Marta, tenha um ótimo fim de semana.

Em meio às risadas constrangidas da mulher, Cereza saiu do escritório moderno e suntuoso e partiu para o elevador. Já tinha percebido que não conseguiria muito alem de informações triviais daquela mulher. Mas pelo menos ela tinha lhe contado um fato interessante, sobre uma possível relação entre um executivo importante da Delevigne com uma advogada. Quais seriam as chances da história ser apenas uma fofoca, porem? Maiores do que desejava.

Cereza pegou o elevador e desceu até a recepção. Tinha que passar pela segurança antes de sair. Quando estava mostrando sua identidade, a recepcionista chamou sua atenção.
-Ei, você é a Cereza Malves? Alguem deixou uma carta pra você hoje mais cedo. Eu ia falar que não sou uma garota de entregas, mas o mensageiro era um cara meio assustador, pra te dizer a verdade. - A recepcionista falou com uma mistura de irritação e pouco caso.
Cereza agradeceu e saiu sem dar explicações. Dobrou a esquina e procurou um estabelecimento que parecesse vazio. Acabou entrando num café numa galeria da avenida. Pediu um café simples, sentou numa mesa e esperou uns minutos, lendo um jornal. No local só estavam ela, o atendente e um executivo de terno que parecia angustiado lendo alguma coisa em seu celular. "Nenhuma mulher. Ótimo."

Quando terminou o café, perguntou para o atendente onde ficava o banheiro. Era um banheiro pequeno, com espaço apenas para uma pessoa. Cereza entrou, trancou a porta e verificou se não tinha nenhuma cãmera aparente. Tirou da bolsa a carta que tinha recebido da recepcionista do prédio. Já estava aguardando aquela carta naquele dia. Era uma carta simples, com um selo genérico. Abriu-a, e retirou de dentro um papel que continha apenas um endereço e um conjunto de letras e números escritos no meio. Um código. Repetiu o código mentalmente algumas vezes e guardou o papel. Murmurou um rítmo de sons interruptos.
- A dança dos monstros. Até que culto, pro estilo dele.
Saiu do café e desceu pela Avenida das Monções indo em direção à Zona Leste.  

Estava um dia quente de resquícios do verão, as pessoas passavam apressadas com rostos suados e expressando irritação.
"Poucas razões pra se estar alegre nos últimos tempos." Cereza murmurou pra si mesma. Olhou o relógio no celular e viu que estava um pouco atrasada. "Aquela mulher não parava de falar... Tsk." Não gostava da ideia de se atrasar para aquele encontro. Se sentia um pouco leve naquele dia, mas não era uma sensação positiva. Sentia que não conseguia manter os pensamentos fixos na cabeça. Como se uma ventania forte estivesse levando-os embora logo que chegavam ao seu consciente.

O sol já estava se pondo quando Cereza passou pela esquina da Avenida 93 do lado de uma pequena costuraria que estava fechando. Estava mais escuro do que planejava que estivesse quando fosse passar por ali. A rua era um pouco suspeita e preferiria não passar por ali se não fosse necessário, mas precisava pegar aquele caminho pra chegar ao endereço. O céu estava intensamente laranja, com um fundo rosa na direção do horizonte. A rua estava silenciosa, exceto pelo barulho das cigarras. Cereza se sentia desconfortável com aquele barulho, que a lembrava de férias na casa de seus avós, períodos monótonos de sua vida em que passava os dias ouvindo o som das cigarras sozinha em seu quarto, olhando o forro velho e despedaçado do teto.

Atravessou a rua e chegou numa entrada suspeita da calçada que levava para um pequeno beco. As paredes estavam pichadas com mensagens indecifráveis e desenhos vulgares. Os prédios dali eram velhos, com paredes emboloradas e portas enferrujadas. Entrando pelo beco, caminhou até uma porta de madeira podre no fim do corredor. Sentia um calafrio que se intensificava em seu estômago. Já tinha feito aquilo muitas vezes, mas sempre temia que aquela vez seria diferente, que aquele seria o dia que tinha entrado em uma emboscada. Respirou fundo e esticou os dedos, tamborilando-os na palma da mão. Bateu na porta várias vezes, em um rítmo músical.

Esperou cerca de trinta segundos, até que a porta se abriu lentamente e Mato apareceu.
- Já estava achando que você não vinha... Entra, vamos na sala.
Mato era um homem alto, magro, com um emaranhado de cabelos negros e volumosos com uma aparência de mal-lavados. Tinha uma feição oriental, olhos cerrados e uma aparência jovem, podendo ser confundido até com um adolescente. O interior do prédio tinha um cheiro forte de mofo e poeira. Passando um corredor estreito, chegaram em uma sala pequena com dois sofás velhos e uma mesa de centro. A decoração passava a impressão de ser uma casa antiga, com papéis de parede amarelos e com detalhes floridos em decaimento, azulejos lascados no chão e marcas de móveis nas paredes. Tudo parecia velho e abandonado. Os únicos sinais de atividade eram um notebook e uma mochila que estavam em cima de um dos sofás.
- Não sabia que você era fã de música clássica. - Cereza falou em tom de escárnio.
- Um... amigo meu costumava tocar essa música no piano. Não gosto muito, mas me traz boas lembranças. - Mato abaixou o volume da voz enquanto falava.
- Até você tem amigos, então? Estou surpresa.
- Heh. Achou que você fosse a única da minha vida? - Mato falou debochando.
- Só pensei que deve ser difícil manter relacionamentos com o... estilo de vida que leva.
- Não pensou errado. Isso foi faz bastante tempo. Numa vida passada, quase...
Mato olhou pensativo pra um quadro na parede da sala. Tinha dois barquinhos brancos no meio de um oceano. De repente, como se tivesse lembrado de algo importante, saiu por um corredor escuro e gritou pra Cereza.
- Quer chá?
- Não, obrigado.

Mato voltou um tempo depois com uma xícara branca simples com um líquido vermelho dentro. Se sentou no sofá da sala e bebeu um gole da xícara. Deu um pequeno sorriso e olhou para Cereza.
- Chá de hibisco. Tem certeza que não quer um pouco? Última oferta.
Cereza fez um movimento de negação com a cabeça enquanto continuava de pé perto do corredor que levava até a porta.

- Você se atrasou hoje. Evite que isso aconteça da próxima vez. - Mato falou num tom não muito preocupado enquanto procurava alguma coisa na sua mochila.
- Desculpe, acabei demorando mais do que o previsto no meu trabalho.
- Não se preocupe, eu estou só arriscando minha vida aqui, nada de muita importância.
Mato falou em deboche, mas Cereza sentiu um pequeno arrepio com aquelas palavras.
- Eu estou me arriscando tambem vindo aqui, não pense que eu tenha esquecido disso.
- Heh. Sempre séria, essa Cereza. Um pequeno risco é sempre necessário pra uma grande recompensa.
- Pequeno risco... - Cereza grunhiu descontente.
Mato deu uma risada, se sentou no sofá e pegou seu notebook, enquanto Cereza ficou de pé ao lado do corredor.
-Vamos logo para a razão do nosso encontro, então.

Mato retirou um pendrive do bolso interno da mochila do sofá e o inseriu no notebook.
- Eu consegui os dados que você me pediu, as listas de distribuição de recursos do ano fiscal anterior... Foi bem complicado de conseguir, pra te dizer a verdade. A segurança deles é exagerada demais pra uma empresa daquele tamanho... Quem sabe você tenha razão pra desconfiar deles."
- Percebeu alguma coisa de anormal? - Cereza respondeu sem alterar o tom de voz.
- Não sou um expert dessas coisas, mas parece que eles tem uma quantia grande de taxas de 'atividades extras'. Não sei se isso é comum em qualquer empresa ou se indica que eles tem laboratórios secretos que fazem experiências genéticas em humanos.
- Hmm. Atividades extra são geralmente taxas que não se encaixam nas outras seções e derivam de atividades extraordinárias, como liquidação de bens físicos ou entrada de investimentos não categorizados.
- Parece suspeito. Eles devem ter mascarado qualquer atividade que atrairia atenção pública. Mas conhecendo você, não duvido que encontre uma pista microscópica que ninguem mais veria.
- Certo. Vou vasculhar e ver se vejo algo.
Cereza pegou o pendrive e o guardou em sua bolsa. Pausou a respiração por um momento. "Preciso perguntar sobre aquilo..."
- E... sobre aquele outro assunto que tinhamos comentado, você conseguiu descobrir alguma coisa? - Perguntou Cereza num tom de voz estranhamente cauteloso.
A sala parecia ter escurecido um pouco quando Cereza perguntou aquilo. Não queria que tivesse soado tão suspeito, mas era tarde demais para arrumar a situação. "Porque estou tão descuidada hoje? Argh!"
- Sobre o outro assunto, o que era mesmo...? Ah, sim! Você pede demais de mim as vezes, sabia? Eu fiz o que pude, mas é complicado descobrir algo a partir das poucas informações que você me deu. Achei algumas referências a grupos religiosos, mas nenhum que parece ter influência aqui na região.
Cereza deu um riso seco. Já esperava que seria uma busca em vão.
- Entendo. Não precisa continuar com as pesquisas, então.
Mato olhou fixamente para o canto da sala. Ficou um tempo desconfortavelmente longo parado, parecia quase uma estátua viva. Até que subitamente retornou o movimento do corpo e olhou diretamente nos olhos de Cereza.
-Você tem certeza que não é nada com o que eu tenha que me preocupar?
-Tenho. Não tem nada a ver comigo, é apenas uma dica que um colega me passou. Se não conseguiu achar nada, é porque deve ser só uma pista falsa, mesmo.
Mato continuou olhando fixamente nos olhos dela, parecia que estava enxergando pequenas modificações na superfície de sua pele, analisando minúsculos movimentos em seu rosto. Até que fez um expressão de contentamento e voltou a focar em seu notebook.
-Tudo bem. Confio na sua capacidade de discernimento.
Cereza respirou fundo. Sabia que Mato tinha percebido que não estava sendo totalmente sincera, mas isso não seria um problema por enquanto. Não tinha nenhuma razão pra explicar aquilo pra ele, e ela mesma nem sabia o que significava. Mas algo dentro dela dizia que devia esperar um pouco, guardar as cartas por mais algumas rodadas.

Se despediu e partiu para casa. Já tinha conseguido o suficiente, mesmo que não fosse tudo o que desejava. Mesmo já estando longe do local de encontro com Mato, ainda sentia uma sensação viscosa no seu corpo, como se tivesse mexido com líquidos pantanosos, nojentos. Não tinha nenhuma razão pra confiar no caráter de Mato e tomava as devidas precauções pra evitar perigos toda vez que se encontrava com ele. Ainda assim, era uma situação perigosa que preferiria evitar se não fosse estritamente necessário.

Cereza estava voltando pela Avenida 93 até a Avenida das Monções. Já estava escuro, e era inseguro caminhar sozinha por aquela região naquela hora. Tinha um spray de gás pimenta caso viesse algum assaltante, mas não era essa sua maior preocupação. Estava com a cabeça pesada, como se um fluxo de pensamentos incoerentes estivesse tomando conta da sua capacidade cerebral. O seu maior medo era que tivesse deixado algo passar despercebido durante o dia. Será que tinha cometido algum erro? Tentava refazer os passos mentalmente, mas era uma atividade infrutífera. Por que tinha se atrasado ao encontro? Isso nunca tinha acontecido antes, sempre era exemplarmente pontual em seus compromissos, especialmente nos importantes...

Chegou à Avenida das Monções. Andou mais algumas quadras até chegar no ponto de ônibus. Esperou poucos minutos e logo seu ônibus chegou. Não estava cheio, percebeu aliviada. Tinha ficado de pé na casa de Mato por todo aquele tempo e estava cansada. Olhou o relógio, eram quase oito horas. Sentou-se num banco ao lado da janela ao lado de um homem loiro de sobretudo e ficou observando a paisagem. As ruas estavam quase todas desertas. Era um caminho que passava pelo subúrbio, uma imensidão de casas simples e parecidas. Dava pra se enxergar as famílias por dentro das janelas acesas. Famílias assistindo à televisão, jantando, fazendo coisas comuns.  

Tinha 'descoberto' Mato fazia alguns anos, quando ainda estava na faculdade. Estava escrevendo um artigo sobre uma empresa de têxteis liderada por um plutocrata tradicional da cidade, acusando-o de práticas bárbaras e desumanas com  seus empregados. Jornadas de trabalho extremas, pagamentos pífios, todo o clássico. Mesmo naquela época, não tinha ilusões de vencer os grandes donos do poder apenas delatando esse tipo de coisa. A exploração dos pobres não é novidade, é padrão no mundo. Sabia que pra causar algum dano, teria que atacar por um ângulo que fosse causar danos políticos. Tinha várias suspeitas quase confirmadas, quem sabe 98% confirmadas, mas sabia que precisaria de algo concreto pra seu artigo causar uma comoção.

Passou meses investigando e procurando provas, numa obscessão insana aos olhos de seus amigos. Os colegas de curso agiam com a convicção de que não tinham nenhuma obrigação de se estabelecer como jornalistas tão cedo, antes mesmo de terminar o curso. Mas pra Cereza, aquele artigo não era algo do qual poderia desistir. Foi uma ideia pequena, que surgiu repentinamente num dia monótono e particularmente vazio do verão anterior e ligou algum interruptor invisível em seu cérebro. Era uma meta, um farol que trazia um senso de direção e rumo para sua vida. Não tinha nenhum interesse especial em ser uma pessoa de renome ou de adquirir riquezas, mas sentia uma necessidade de testar a si mesma. Era como um jogo, de certa forma. Sua vida estava muito fácil e previsível, o que lhe fazia sentir estagnada. Precisava de um objetivo que pudesse despertar lados de si que estavam dormentes.

Evitava comentar sobre o tema real do artigo para as pessoas, mas seus amigos próximos tinham uma certa noção do que era. Seu namorado, Mark, frequentemente dizia que tinha que relaxar, deixar as preocupações de lado... Aquelas palavras não eram verdadeiramente assimiladas por ela, mas ainda a trazia um certo prazer ouví-las. Como se os seus esforços estivessem sendo observados, respeitados. Tinha total confiança em sua capacidade de lidar consigo mesma, e não se intimidava perante uma carga imensa de trabalho. Não tinha chegado em seu limite ainda, nem perto disso.

Um dia, quando estava em uma aula tediosa de Gestão de Negócios, recebeu uma mensagem de seu amigo Rogle dizendo que queria conversar com ela pessoalmente depois da aula. Eram amigos de longa data, desde os tempos de escola. Se encontraram num barzinho meio isolado, na extremidade do bairro universitário já perto da zona oeste. Cereza estranhou a localização do lugar, mas imaginou que Rogle queria evitar os bares movimentados da região universitária.

Após conversarem um tempo sobre suas vidas e assuntos cotidianos, Rogle perguntou pra ela se ainda estava trabalhando no artigo. Rogle era a pessoa a quem mais tinha contado sobre o artigo, e sabia que ela estava investigando uma entidade suficientemente grande e poderosa. Cereza não queria trazer o assunto do artigo à conversa, mas suspeitou que Rogle teria um motivo pra perguntar sobre o assunto. Ele não era uma pessoa que fazia as coisas desnecessariamente. Contou pra ele que estava com dificuldades pra encontrar provas concretas e que ainda tinha muito trabalho pela frente. Ele ouviu com atenção sua história, contemplando o copo de bebida em sua frente em silêncio.

Rogle era filho de pseudo-aristocratas ricos e de status elevado com as elites da cidade. Foi incentivado pelo pai a seguir a carreira política, e por isso sempre participou de festas da alta sociedade, adquirindo contatos com muitas pessoas importantes da cidade e até do mundo. Mas quando saiu da escola, decidiu que queria seguir seus próprios desejos, sem ficar atrelado às expectativas de seus pais. Decidiu se dedicar aos estudos acadêmicos e pensar em seus próprios caminhos para a vida. Era extremamente inteligente, e se interessava profundamente em aprender sobre os relacionamentos das pessoas e as organizações sociais. Cereza foi quem mais o incentivou a seguir esse rumo, percebendo o potencial dele. Não um potencial de conseguir riquezas, desempenho profissional, ou nada tão redundante, mas o potencial de ser alguem que deixaria uma verdadeira marca no mundo.

Depois de um tempo, a contou que tinha ouvido falar de um "investigador pessoal" que entregava resultados difíceis de se conseguir por meios normais. Pra entrar em contato com ele, seriam necessários alguns procedimentos prévios. Conversar com intermediadores, esperar uns prazos, seria algo feito com bastante precaução.
Perguntou se Cereza estava realmente certa de que queria chegar tão longe, mas na verdade já sabia que ela iria aceitar. Tinham um respeito mútuo um pelo outro, sabendo ambos que eram pessoas que almejavam coisas acima dos padrões da sociedade.

Cereza ficou sem reação por uns momentos. Era algo que ela já tinha considerado buscar até por conta própria, mas não imaginava que uma oportunidade viria tão cedo. Perguntou como ele ficou sabendo desse contato, se haviam medidas de segurança, se não seria até um espião. Depois de ouvir vários argumentos, acabou concordando. Rogle deu um sorriso com o canto dos lábios e a olhou com admiração. Naquele momento, lembrou de um dia que surrupiou de noite pra roubar doces de sua avó quando era pequena. Roubou-os porque queria, porque sabia que não iriam fazer falta, e iriam acabar estragando se ninguem os comesse. "Ninguem nunca precisa saber." Sentiu uma atração intensa por Rogle naquele momento, como se algo estivesse amolecendo e dissolvendo em seu corpo lentamente...

---


O ônibus havia chegado ao terminal. Cereza desceu e saiu para a rua para caminhar até seu prédio, que ficava perto dali. As lojas já estavam todas fechadas, com os únicos sinais de vida na rua sendo os poucos postes espalhados esparsamente por sua extensão. Finalmente chegou em casa, um prédio pequeno de quatro andares. Seu apartamento era o 301. Era pequeno, mas não precisava de muito espaço. Alem disso, o alguel era barato e a paisagem da janela era bonita. Dava pra se ver a costa da cidade na distância, com o oceano no horizonte. Toda vez que se sentia transtornada, passava um tempo olhando o mar.

Estava olhando pela janela quando subitamente viu um homem parado do outro lado da rua, logo na frente do prédio. Um calafrio imediatamente tomou conta do seu corpo. Era um homem loiro, usando um sobretudo marrom e carregando uma mala. Parecia ter cerca de trinta ou quarenta anos. Buscou rapidamente em sua mente e se lembrou de que tinha visto esse mesmo homem no ônibus mais cedo. Rapidamente saiu da janela e se agachou no chão da sala.

"Será que ele estava me seguindo?" O pensamento veio se arrastando como uma aranha subindo por suas pernas. Não era muito provável que ele fosse um seguidor simplesmente por estar em sua rua, mas era muito estranho ele estar parado exatamente na frente do seu prédio naquela hora. Decidiu checar pela janela do banheiro, que dava na mesma direção e era mais discreta. Sem acender a luz, foi no banheiro e lentamente esgueirou os olhos pra enxergar a rua. O homem ainda estava lá, mas agora estava mexendo num celular. Ficou por uns dois minutos digitando algo, até que se virou e olhou para a direção do apartamento. O coração de Cereza parou por um segundo. Teve certeza que ele olhou diretamente pra sua olhos, mesmo sendo completamente improvável que ele tenha visto ela através da janela escura do banheiro.

Depois de olhar fixamente para o apartamento por alguns segundos, o homem começou a andar e foi embora. Cereza respirava palpitante enquanto observava as costas dele sumirem na distância. Naquele momento, um pensamento terrível tomou conta de sua mente. "E... Se ele tiver vasculhado meu apartamento...?" Saiu correndo em direção ao seu quarto. Olhou no canto superior da porta fechada. O selo. Estava lá, um pequeno pedaço de fita adesiva transparente preso na porta, intacto.

Cereza entrou no quarto e se jogou na cama. Porque alguem estaria seguindo ela? Alguem teria descoberto o que andava fazendo? Não tinha como, sempre agia anônimamente, e tomava todas as medidas para que ninguem conseguisse ligar os pontos. Tinha desenvolvido um sistema impecável, era impossível, impossível...! Se levantou, foi em sua bolsa e buscou uma chave. Foi para a frente de seu armário, e colocou a chave em uma gaveta na parte inferior dele. "Clac". Uma trava se abriu, e Cereza abriu a gaveta. Vários papeis estavam dentro, mas apenas um era importante naquele momento. Do meio da pilha, retirou uma carta. Pegou a nas mãos, sentindo a textura do papel, como se estivesse verificando se não era uma ilusão. Era uma carta como as que Mato lhe enviava, simples e sem nenhum adorno. O único conteúdo que tinha era um carimbo no meio do papel, com um desenho de uma cobra engolindo a própria cauda.

Comentários:


  • Essa história se passa no mesmo mundo do Kanai, dos textos anteriores. Ele e Cereza estão relacionados, algo que pretendo detalhar num futuro texto.
  • Tenho muito pouco conhecimento sobre empresas/economia/etc , então me corrijam se eu falar alguma besteira grande sobre o assunto, ahaha!



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