"Histórias de Quem Não Viaja"

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"Histórias de Quem Não Viaja"

Mensagem por Zé Joelho em Seg 14 Mar 2016, 21:58

"Hering"


Em um planeta azulado em um sistema distante da maioria, grande e molhado, Henrig-Shink descia em seu módulo privado. O planeta era basicamente água, salpicado e ilhotas com raras extensões de terras maiores que um bairro de sua cidade-natal. Haviam montanhas sim, ao norte. Henrig é, de fato, um ser sortudo e iria cair exatamente onde há uma montanha com rochas pontudas. A única com nome - deveras encorajador- de "Garfo do Diabo Branco". E claro, o módulo teve uma pequena explosão um pouco depois de entrar na atmosfera do planeta. Hering gosta de alpinismo sim, mas fez pouco: Já subiu a escada para alcançar revistas velhas e no processo, que se passou mais da metade no hospital, perdeu um osso do ombro.

As pedras pontudas eram esmeralda com tímidas safiras, tudo coroado com o diamante negro em sua ponta. Uma obra de arte natural intocável. Tudo teria cor rubi em alguns minutos, talvez. Hering girava com sua nave violentamente deixando um rastro brilhante de destroços no céu do planeta, digno de fotos... Digno de pedidos! "Quero que o irmão dele morra." Hering chegou se enturmando e com trabalho. Mas para matar o irmão do jovem mal caráter terreno, Hering devia sair dali. Como? Só tinha um corpo laranja escuro enrugado, meio acima do peso e com sua mochila de calor. Sem esse bloco de metal nas costas Hering morreria em qualquer planeta em cinco minutos! Ele já ouviu falar! A mochila estava, no entanto, tão clara quando o Sol de Irê, sua casa, e a vontade de tentar cortar fora era plausível.

Uma ave preta de lindas penas de ponta azul anil, colar branco de penas quase transparentes e olhos vermelhos voava com a tranquilidade de um sábio. Linda. Como ficaria estirada no módulo privado de Hering? Não deu para ver; explodiu-se em penas chamuscadas e sangue. Tal atrocidade com tal lindo animal trouxe milagres: a placa de metal incandescente diminuiu um pouco de velocidade e se estabilizou. A ponta do diamante negro não era problema agora que a queda mudou de trajetória e agora esmagaria algo como um templo ao pé da montanha. Por sorte vivia um idoso bem humorado e de bem com a vida lá e com enorme família por todo o planeta. Não reclame, senhor, tá na hora né?

Dentro do módulo Hering terminava de vomitar. Vomitou de novo, odeia quedas. Olhou em sua volta.
- Agora... Agora dá pra fazer algo, não? Computador?!

Uma voz robótica saiu de sua mochila, como se suspirasse em desânimo:
- Tente o manche. Tá no manual.

Hering agarrou o manche e queimou as mãos. Com um grito amaldiçoou todas as estrelas do céu.
- Isso é sério, Tartius. Se eu morrer aqui, você desliga também! Pera... - todo o corpo de Hering congelou com o passar de uma brisa de pensamento - se eu morrer... Tantos processos inacabados! Eu nem devia estar aqui! E meus pais? E Sue? E minha coleção de Caccon?

Engoliu a seco e quase cochichou:
- E meu marcador de página?
- Você é mesmo um sujeito impressionante. - disse Tartius - Quer saber? Vamos morrer. Eu prefiro assim.
- Não é hora para ironia, Tartius!
- São 12:36 nesse planeta e 18:45 em Irê...
- Tartius.
- Sim?
- Chances de sobrevivência.

Um silêncio tomou a cabine que agora tremia bem menos e o chão crescia rápido.
- Tão poucas assim? - indagou Hering
- Deixa acontecer.
- Números, Tartius!
- 13%.
- De sobrevivermos? Ai meu divino Embargador, o que fazemos? Tartius! Tartius, faça algo!

Uma música de valsa começa a tocar na cabine. Hering agora tem um olhar vazio para a janela, esperando o impacto.

E de fato acontece. Três impactos, sendo um deles molhado. Hering desmaiou no primeiro e assim ficou por pelo menos três minutos. O metabolismo acelerado de sua raça não deixava o corpo desligado por muito tempo. Olhou para a janela em pedaços e a chutou até que saísse da lateral do latão. Pulou para fora e caiu de joelhos e, tocando a grama, começou a chorar.

- Estamos vivos! Ha! Estamos vivos, Tartius!
- Que ótimo. - a voz robótica podia lhe enganar pensando que alguém revirava os olhos
- Eu nem acredito! Agora, bem, vamos ao procedimento. Dano?
- Como assim? Olha pro módulo. Tá destruído.
- Vitais.
- Estamos vivos. Eba. - a frieza da mochila de Hering afastava até os pequenos animais curiosos pela estrela que caíra
- Sua carga e situação, Tartius.

Um barulho de cascalho e ranger de metal soou baixo.

- EQUIPAMENTO DANIFICADO. RESERVA DISPONÍVEL: CIN-CO DI-AS TERRA. - disse Tartius com voz automática padrão - Nossa, odeio quando tenho que falar padrão.
- Temos cento e vinte horas de vida então.
- E mais cinco minutos de você agonizando sem energia que, infelizmente, não estarei aqui para proporcionar.

Voltando sua atenção para o rastro de sua queda Hering percebe que bateram um pouco ao lado da casa do velho, por muito pouco mesmo. O estrondo quebrou algumas janelas e talvez porcelana, mas a casa vive. Quem não vive é o velho que saíra justamente para fumar seu cachimbo. Ele tinha câncer de pulmão e o estava vencendo. Hering não sabia que matara alguém, o sangue se espalhou ao longo da vala extensa que parava em uma árvore e depois finalmente a bola de metal retorcido, o módulo.
Hering imitava uma fêmea agora:
- "Esse módulo é de qualidade e tem seguro." To vendo! - coçou a barba rala do queixo quadrado - Nunca mais espero oito meses para comprar uma nave na Stolo. Tartius, capital!
- Estamos sem dinheiro.
- Capital ou cidade mais próxima, Tartius.
- 150km ao sudoeste.
- Estamos longe demais.
- Observador.

Antes que Hering pudesse reclamar de mais alguma coisa uma nave irrompeu por de trás de umas das ilhas ao sudoeste, vindo em sua direção cambaleante, vidros escuros. Era uma nave terrena. Hering não perdeu tempo em saltitar.
- Ei! Aqui! Ajuda! Ei!

A nave acelarava cada vez mais e puxava para a esquerda, empenando para a ilha ao sul.
- Não! Aqui! Pra cá! P*ta que... - a nave então explodiu contra a margem da tal ilha - Magnífico. Muito legal.

A carcaça boiava ao longe e Hering se esforçava para tentar enxergar algum movimento. As vezes acenava para estimular uma possível visão embaçada do acidentado. Até que as ondas fizeram o favor de virar a nave de ponta cabeça e faze-la afundar devagar. Um braço saiu da cabine, com ossos a mostra.
- Temos que tentar ajudar! Tartius, chances de sobrevivência.
- Dele ou sua?
- Dele...
- 80%
- Sério? Vou entrar na água, ligue a vedação.

Hering nadou até o braço com dificuldade. Sua vida sedentária em mesa de escritório lhe deu "ossos largos". Nadar naquele mar parecia nadar em areia movediça. Cada vez que acelerava as braçadas, menos avançava. Segurou o desespero e chegou a cabine quase cheia d'água. Um rosto ensanguentado procurava o mínimo de ar.
- Aguenta! Vou tirar você daí! - Gritou Hering
- Fod*-se você. Casei com sua tia. - disse o moribundo
- O que? Amigo, olha para sua situação...
- Olha para sua vida, rapaz. Toma tendência.
- Esse parece esperto - Disse Tartius

A mão esticada e cheia de ossos expostos do moribundo carregava uma medalha prata com bronze. Hering notou isso com muito grito e desespero após a mão do, agora morto, "Capitão Boca". Também conhecido como "Boca Suja". A nave terminou de afundar puxando tudo para baixo e a força que Hering fez resultou apenas em uma amputação. Hering nadou de volta para terra firme, do lado de sua nave chamuscada e pintada de dois tons de vermelho: Vermelho velho e vermelho pássaro raro. Se apoiou na lataria para respirar depois da natação repleta de caibras.
- Olhe para o colar de novo, preciso verificar algo. - disse Tartius
- Colar? - Hering não entendera
- Da mão que tá presa no teu macacão desde seu ataque de histeria.
- Ai! Ainda está comigo!

Tartius escaneou o colar e percebeu uma micro moeda no meio. Lá estava escrito:

Não sei quem és
Pra nada vales
Vá para Endmé
Vá para os sabres


- O que quer dizer, Tartius?
- Propaganda barata.

Hering sentou no chão, balançou-se em posição fetal e depois deitou.
- Olha, podia ser bem pior. Podia chover agora.

Olhou para cima e as nuvens estavam dissipadas e não apresentavam qualquer perigo, apenas o Sol branco e pequeno. A sorte não tentara humorizar a cena, porém ao baixar os olhos na linha do horizonte novamente, viu várias naves em linha; uma grande frota. Chegou a levantar e acenar, mas logo se arrependeu. As cabines eram abertas e vira um bando de homens furiosos e armados. Podia jurar que podia ver a vermelhidão da raiva tocar o mar. Eram a polícia.
- Sério, só chover tava ótimo.
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Re: "Histórias de Quem Não Viaja"

Mensagem por Lain em Seg 14 Mar 2016, 22:42

E meu marcador de página?
Ótimo! 

Fazia tempo (anos!!) que não lia um de seus textos de comédia (tu sabe quais foram os últimos, né?), tu é bom nisso. Ansioso para saber como continuam as desventuras de Hering.

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Re: "Histórias de Quem Não Viaja"

Mensagem por Tarin em Ter 15 Mar 2016, 01:34

@Zé Joelho escreveu:Propaganda barata
Hahahaha

O texto é bem divertido, principalmente nas interações do Hering e Tartius. As coisas acontecem de um jeito inesperado, deixando o texto mais dinâmico de ler. E as pontas soltas do texto(a medalha, a polícia, etc) me deixam curioso pra saber como vai continuar.

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Re: "Histórias de Quem Não Viaja"

Mensagem por Tomate em Ter 15 Mar 2016, 01:39

Texto dinâmico, simples e engraçado. Parabéns, Zé. Ansioso pelo segundo capítulo, mas deixa eu dar uns pitacos:

Gostei do jeito que escreve os personagens e o ambiente, é impressionante. Mas o dinamismo, às vezes, pode deixar o texto um pouco confuso, tente acertar isso para deixar o (possível) segundo capítulo ainda melhor que o primeiro (pois é possível).

No mais, aguardando... E lendo...
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