Life is Strange, o "vácuo", e a eventual obsessão

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Life is Strange, o "vácuo", e a eventual obsessão

Mensagem por Basara em Seg 02 Nov 2015, 03:52

Já faz quase duas semanas desde que joguei o episodio final de "Life is Strange". O auge da obsessão já passou, já consigo jogar outros jogos ou me concentrar em outras coisas, mas ainda passo parte do dia no subreddit e em uma sala do IRC dedicada ao jogo, e as vezes ainda procuro por mais algum youtuber jogando o episodio, acho interessante ver as reações e decisões alheias. 
Muitos já passaram por isso num nível ou outro. Você termina algum anime, série, jogo, livro, ou qualquer tipo de mídia que transmita uma estória, e em seguida passa horas, dias ou semanas incomodado, tentando lidar com a ausência de conteúdo a mais com aqueles personagens e/ou naquele mundo. Existem vários meios comuns de tentar lidar com esse vazio, e dependendo de quem for, vai tentar um ou mais desses métodos, talvez todos. 
O método que vejo como o menos recomendável é buscar outra obra similar. Isso vai quase sempre falhar, já que mesmo se por acaso a nova obra for melhor que a que gerou o vácuo, ela provavelmente vai falhar em atender suas expectativas. As diferenças (mesmo que poucas), vão ser o bastante para gerar uma rejeição de sua parte. Vai acabar com uma impressão da nova obra mais negativa que ela provavelmente mereça. 
Rever imediatamente a mesma obra talvez funcione, mas depende da pessoa. 
Pessoalmente, os métodos dos quais costumo tomar parte são: 
1. Visitas a fóruns de discussão, ou o subreddit dedicado à obra em questão... e quem sabe a Anomalia Zero um dia se torne capaz de cumprir essa função também. Num momento de "vácuo", é comum querer falar muito sobre a obra, e as pessoas mais dispostas à essas conversas são as que estão passando pelo mesmo vácuo, e elas vão naturalmente se dirigir a fóruns e subreddits. Além da discussão geral, essa reunião também facilita o acesso aos itens do segundo método. 
2. Fanart, fanfics, doujinshi, teorias, especulações, spin offs, universo expandido. Etc. Qualquer coisa que de alguma forma providencie conteúdo a mais daquele universo, ou daqueles personagens. 
3. Escrever fanfics, teorias, etc.. ou analises, resenhas, e por ai vai. Ponha seu cérebro para funcionar, utilize todo o conteúdo que absorveu recentemente como combustível para sua criatividade e para auto-aprimoramento. Não é apenas sobre aperfeiçoar suas próprias capacidades artísticas e críticas, mas também sobre aperfeiçoar o conjunto artístico e (acima disso), cultural ao redor do qual o fandom gira, assim como o conjunto total da cultura humana. O excepcionalmente cínico e crítico "ThatAnimeSnob" faz uma rapida e decente argumentação sobre isso aqui (em inglês, infelizmente).

Precisei mergulhar intensamente nesses métodos recentemente, visto que Life is Strange (LIS, de agora em diante) criou o maior vácuo que já tive na vida, e foi a segunda obra que me levou a níveis de obsessão (incapacidade de focar em outras coisas por vários dias). Vou falar mais sobre isso mais tarde, mas antes acho valido mencionar algumas outras ocasiões nas quais fui tomado por esse vácuo, e como lidei com cada ocasião.

- Terminei de assistir A Lenda de Korra (revi toda a Lenda de Aang antes de começar Korra), gerou 2 ou 3 dias de vazio. Não foram os personagens que fizeram falta (apesar de serem decentes), mas o universo, que tem tanto potencial. Lidei com o vazio visitando o subreddit e, principalmente, lendo as trilogias de Graphic Novels que adicionam detalhes ao período entre as duas séries: A PromessaA BuscaA Fenda (ingles). Acho que existe mais uma sendo feita, já. "Smoke and Shadows".
- Após terminar "A Dança dos Dragões", o quinto livro das Cronicas de Gelo e Fogo. O vácuo foi bem fraco nesse caso, visto que não é realmente o final da série. Mas achei valido mencionar pois imagino que vai ser muito mais forte quando a série de fato terminar... um dia... talvez. De qualquer forma, desde que terminei o ultimo livro disponível, li também O Cavaleiro dos Sete Reinos, vasculhei a imensa Wiki of Ice and Fire (ingles), e passei a acompanhar alguns canais no Youtube de discussão, informação e teorias (todos em inglês), como Alt Shift X RawristGot Academy, e o excepcional Preston Jacobs.
- Angel Beats e Kokoro Connect são dois animes que geraram vácuos fortes, mas curtos. Não achei muito conteúdo extra de interessante (e o que achei era um incomodo de ler/jogar), pra nenhum deles, e a sensação de vazio acabou terminando com o tempo mesmo. 
- A sitcom Community gerou um vazio quando primeiro assisti as 5 temporadas em 2014, e novamente esse ano, quando revi as 5 e em seguida assisti a nova temporada. Sendo uma comédia e episódica, não chega a fazer falta da mesma forma. Mas foi o bastante pra me motivar a ir atras de entrevistas com o elenco, o que é inusitado pra mim, visto que normalmente não me interesso pelos atores. 

Esses são os casos principais dos quais consigo lembrar... Nenhum deles tão forte, certo? Certas pessoas devem experimentar isso muito mais que eu, especialmente fãs de animes, que estão frequentemente assistindo séries inteiras de uma vez só, algumas delas bastante emocionantes. 

Mas LIS superou todas esses casos que listei. LIS e Neon Genesis Evangelion (EVA, de agora em diante), são as únicas obras que me levaram a um nível de obsessão, no qual tenho dificuldade em me concentrar em qualquer outra coisa por dias, nem mesmo consigo ler ou jogar outras coisas. É estranha que essas duas sejam nomeadas juntas. Elas tem algumas semelhanças curiosas: ambas foram severamente prejudicadas por orçamento pequeno em seus momentos finais, o que levou ambas a criar certas sequencias com foco psicológico pesado que reutilizam linhas de dialogo e economizam na animação, e ambas tem finais controversos (pelo menos antes de End of Evangelion, para EVA). Ambas as estórias também tem grande foco nos personagens, sendo eles o principal ponto onde o jogador/espectador deve focar, em vez de apenas engrenagens para mover o enredo. Mas as semelhanças param por ai.
Em meu ponto de vista, EVA é ate então (há de cair, não deve demorar tanto), o auge da criatividade humana. Isso foi só um jeito longo de dizer que é minha obra favorita. Os personagens são muito mais bem feitos que os de LIS, o mundo é mais consistente, e é muito mais bem polido no geral. Tem também a diferença de ser muito mais tenso e deprimente que LIS, no decorrer de toda a série. No geral, o tom da estória é muito diferente, são estórias com focos completamente diferentes, a ponto de ser difícil comparar. E eu diria que a qualidade da narrativa de EVA é muito superior, de qualquer forma.. Não é a toa que me obcequei por EVA. Não uma vez, mas várias. Desde que assisti por completo pela primeira vez, todo ano tem algum período no qual me sinto obrigado a retornar a Evangelion, rever o anime original, os Rebuilds, reler o manga, e vários doujinshis, rever videos de analise e teorias no youtube, revisitar fóruns e grupos de discussão, ouvir a trilha sonora toda de volta sem parar. E pra mim vale a pena, a série é bem feita e os temas apelam pessoalmente a mim. 
A obsessão com LIS é mais difícil de justificar, e é bem provável que não se repita periodicamente, como a por EVA. Os personagens de LIS são estereótipos... aprofundados além do normal, mas ainda não tão bem trabalhados. O dialogo em alguns momentos é vergonhoso, as tramas e sub-tramas são utilizadas de maneira bem menos eficiente. Diferente de EVA, não tem (ao menos por enquanto, quem sabe...), um pedaço a mais (The End of Evangelion), encaixado ao final para compensar o baixo orçamento nas ultimas partes da estória. No geral, eu diria que é uma obra bastante inferior. Mas tem uma grande vantagem.
Life is Strange é um videogame. Nenhuma outra mídia/forma de arte pode utilizar elementos de todas as demais simultaneamente, nenhuma pode interagir com o público.  É o máximo da imersão em um trabalho artístico. Um jogo não precisa chegar ao mesmo nível de qualidade que um livro ou um filme precisa para causar o mesmo efeito no público. E LIS faz um bom trabalho em manipular o jogador emocionalmente (cria atmosfera muito bem, dublagem excelente). LIS é (ao meu ver), apenas o melhor , no melhor gênero de em matéria de narrativa imersiva, da melhor mídia em imersão. Mas é um jogo feito por um estúdio jovem, num gênero jovem, numa mídia jovem. Por mais que consiga afetar o jogador, esta longe do potencial verdadeiro que jogos podem trazer em termos de influenciar/afetar o jogador. O que significa que de agora em diante, o vácuo vai se tornar mais frequente e mais intenso conforme a industria de jogos avança. 
E esse é o ponto mais importante a ser considerado. O vazio que uma estória deixa ao terminar é a prova do quanto ela afeta um individuo, e se esse efeito se torna mais intenso e mais frequente, é um indicativo do quão mais influente na vida das pessoas a arte como um todo se torna. Podem ter certeza que durante as próximas décadas a arte se tornará cada vez mais relevante na vida das pessoas. Se importar com um mundo fictício ou personagens fictícios se tornará cada vez mais frequente e aceito. Muito mais obsessão esta por vir, e não vejo problema algum nisso. 
Alguém tem mais exemplos de casos de "vácuo" deixado por uma estória? Ou opiniões sobre o aumento da presença da ficção em nossas vidas? É realmente um aumento, ou apenas o espaço deixado pela queda na religiosidade sendo preenchido?

Como podem ver, o sentido do texto se alterou em seu decorrer. Isso é porque o escrevi aos poucos ao longo de várias horas. Não vejo problemas nisso, isso não é uma coluna, apenas um meio para que eu possa discutir comigo mesmo e uma base para discussão com vocês, aqui na Anomalia.

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Re: Life is Strange, o "vácuo", e a eventual obsessão

Mensagem por Tarin em Qui 05 Nov 2015, 02:38

O "vácuo" é uma sensação agonizante... Como se aquela mídia, aquela história tivesse entrado na sua cabeça, mudado alguma parte lá de dentro e te deixasse de alguma maneira diferente pra sempre. E aquela história acaba e te deixa sem saber mais o que fazer consigo mesmo.

É interessante que tu diga que a interatividade do LIS pode ter aumentado a ressonância emocional do jogo. Acho que eu nunca tive esse momento ainda em um jogo que eu diria que a interatividade, etc realmente tenha feito uma diferença na experiência geral. Mesmo nos jogos com mais escolhas, parece que os sacrifícios que tiveram que fazer com a história pra acomodá-las acabam deixando o jogo meio decepcionante. Pretendo jogar o LIS logo pra ver se minha opinião muda, haha.

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Re: Life is Strange, o "vácuo", e a eventual obsessão

Mensagem por Basara em Qui 05 Nov 2015, 13:05

Talvez seja algo que o gênero de LIS (e dos jogos da Telltale) especificamente seja melhor em fazer. Mesmo que ainda façam sacrifícios para acomodar a historia como jogo, acho que as mecânicas desse gênero aumentam o efeito da interatividade.
E no caso de LIS, a competência na criação de uma "atmosfera" aumenta ainda mais. Basicamente, os games podem puxar elementos de todas as outras formas de arte, e LIS faz questão de aproveitar isso pra gerar a tal atmosfera. Os jogos da Telltale já não são tão bons nisso.

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Re: Life is Strange, o "vácuo", e a eventual obsessão

Mensagem por Zé Joelho em Seg 22 Fev 2016, 22:15

O assunto "Evangelion", você me conhece Basara, é por mim muito apreciado. Eu admito minha total ignorância acerca de diversos assuntos tratados e a maneira como são tratados dentro da série e filmes. Mas é algo a ser tratado em outro tópico.

Joguei o primeiro capítulo e metade do segundo de LIS. E só concordo que o game está muito longe de seu potencial. Não consigo me envolver com a estória, é muito "teen". O jogo em si não me cria empatia. Reconheço, entretanto, o valor da produtora que começou agora e já tem um jogo neste nível que, apesar das minhas críticas, é melhor que 80% que a TellTale (lembrando que esta tem bem mais jogos que The Walking Dead).

The Walking Dead (Season 1) foi o primeiro jogo que me deu a sensação de vácuo. A narrativa, dublagem e os personagens são demasiadamente envolventes. Joguei mais de uma vez e, numa delas, em grupo. Quando em grupo nos encaramos desesperados com a trama.

The Last of Us fora o segundo jogo que me deu sensação de vácuo. Não há game no nível de ação + emoção que este. Pra mim o maior jogo que joguei.

Devo insistir em LIS?

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Re: Life is Strange, o "vácuo", e a eventual obsessão

Mensagem por Basara em Seg 22 Fev 2016, 22:20

Recomendo que insista pelo menos ate o fim do capitulo 2. Sim, LIS começa teen, mas vai se desenvolvendo pra algo mais sério no decorrer dos 5 capítulos. O primeiro é muito teen, o quinto já não tem nada disso.
Tenho certeza que se LIS fosse uma série ou um livro eu não teria gostado. Mas toda a questão da interatividade e envolvimento com os personagens tornou o drama que esta por vir muito mais dramático.


Edit: Pra ficar claro, o "teen" não abandona o jogo antes do capitulo 5. Continua bem presente. O jogo apenas vai se tornando algo MAIS que teen.

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Re: Life is Strange, o "vácuo", e a eventual obsessão

Mensagem por Lenah em Dom 29 Maio 2016, 21:19

Life is Strange é um jogo engraçado. Isso do "teen", do diálogo às vezes ser dramático ao ponto de dar aquela vergonha alheia e vontade de se esconder em um buraco foi tão bem tratado que é meio genial, na minha opinião. Porque é assim que você se sente, quando se é um adolescente. É uma parte normal da vida. Se você passou pelo ensino médio sem ser cringeworthy, você está mentindo.
Eu achei o máximo, mas é porque eu amo essas coisas. Tem que ser dramático mesmo, tem que se importar com as coisas, sim e, se quiser, tem que ser tão hipster que chega a não ser hipster. Eu acho que muito interessante quando uma mídia faz isso, usa o rótulo na cara mesmo, ainda que seja muito mais além do rótulo.

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Re: Life is Strange, o "vácuo", e a eventual obsessão

Mensagem por Basara em Dom 29 Maio 2016, 21:27

Esta certa, eu ouvi esse argumento pouco tempo após esse tópico original e acabei aceitando-o. Adolescentes realmente falam de maneira cringy. Meio que faz parte da imersão na historia.

O que levanta uma questão comum de séries, filmes e jogos, e ate livros: todo mundo sempre consegue se comunicar tão bem. Não se esconde que é o escritor parafraseando tudo. E isso é aceito, porque é difícil para um escritor simular as dificuldades e estranhezas de dialogo que um personagem pode ter, e também porque é visto como uma barreira dispensável para a compreensão da historia pela audiência. LIS simplesmente aceita essa comunicação desajeitada.

Apesar de ter na época estranhado algumas frases de LIS, achado-as "cringeworthy", eu nunca tive e ate hoje não tenho aquela sensação que tenho ao ver um adulto ou idoso tentando emular comportamento e gírias dos jovens, que por si só gera todo um outro tipo de vergonha alheia.

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Re: Life is Strange, o "vácuo", e a eventual obsessão

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